quinta-feira, 4 de setembro de 2008

mais um texto sobre dias em branco

esse texto quem escreveu foi o jõao. eu gosto muito do texto. acho que principalmente pelo fato dele não ser crítico de cinema. é uma outra visão.

Dias em Branco

Quando, dizendo “nada”, diz-se muito.

“I have nothing to say / and I am saying it / and that is poetry / as I nedeed it”. Resume-se aí o argumento central do último filme dos irmãos Pretti, “Dias em branco”, neste poema de John Cage, apresentado em tela preta ainda no início da película, corrijo-me, vídeo. V-Í-D-E-O, sim. Pois o meio assume uma ênfase quase “guerrilheira” para essa fértil dupla que já ultrapassa a marca dos vinte e seis filmes realizados, desafiando os impedimentos materiais que asfixiam a sétima arte no Brasil. Não estou a par de toda a sua produção, mas se pelo menos um quarto for de qualidade comparável a este último, desbancam qualquer diretor brasileiro da atualidade e muitos dos já consagrados.



Abro aqui um rápido parêntesis para tratar da dificuldade de criticar um trabalho do qual participei diretamente – como se posicionar criticamente em relação a algo em cuja execução se está envolvido pessoalmente? Poderia enveredar pelo caminho da informalidade ou do diálogo “artístico”. No entanto, decidi-me pela crítica teórica mesmo, rejeitando qualquer pretensão à neutralidade, que, de qualquer forma, é sempre uma quimera, afinal, o sujeito não pode nunca se “desligar”. Dessa forma, atenho-me, também, às minhas concepções estéticas, apoiadas, como estão, na crença de que não existe arte sem o discurso sobre arte; que ambos se mesclam, indissociavelmente, num mesmo domínio comum, e que o próprio discurso teórico é também arte. Portanto, teorizo sim, mas com muita “arte”.



“O que enquadrar?”, pergunta uma das personagens, lendo um texto escrito por um dos diretores (Ricardo). A pergunta ganha ares de exercício metalingüístico no desenrolar do trabalho. O que fica explícito numa das cenas finais, em que duas das personagens principais - aliás, personagens não, pois os diretores afastam-se deliberadamente das personagens psicológicas da dramaturgia convencional, mas, sim, “atores-artistas”, ou “animais interrompidos”, na feliz definição de Alvaro Fagundes, que também participa do filme, protagonizando uma graciosa cena de balé a contra-luz – discutem a realização de um roteiro. Um roteiro que não se efetiva, não se realiza como “obra acabada”, e nem poderia, dado que o próprio filme é uma obra inacabada: “ainda não é o fim”, conforme se lê nos créditos finais. Não é o fim porque continua encarnado nos “atores-artistas” - que na última seqüência caminham em direção à câmera transpondo o seu limite, indicando que a coisa continua - cuja participação é “indispensável” (outra dica dos créditos) à idéia essencial abordada pelo filme: o próprio processo de criação, vivido e representado. Não o momento de materialização, de cristalização da idéia em obra fechada, mas sim aquele momento inefável, aquele fluxo que não se interrompe, aquele algo que não se captura, fugidio como notas num improviso musical (o paradoxo é apenas aparente, como a própria palavra inefável). A metáfora é o mar – ou talvez o mundo natural como um todo, “flagrado” em diversas tomadas (a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Morro dos Cabritos, as amendoeiras e flamboyants que arborizam as ruas da Zona Sul ou um gato desconfiado que se esconde num canteiro de marias-sem-vergonha) -, entidade em permanente movimento, agindo independente e incessantemente; não se pode contê-lo; esmiuçar uma gota que seja do seu ser é perder o sentido de movimento, da força augusta e inelutável que o move. No entanto, pode-se “flagrá-lo” na intensidade do momento, fruir, sem possuir, sua beleza. O que se intui com o filme é uma ética substancial da própria materialidade, não há nenhum significado secreto aqui; o que conta, em última instância, é o próprio estar no mundo, e dever, de qualquer forma, interagir com ele; o espaço é realidade, é vivência. É esse o sentido da obra inacabada dos gêmeos: fluxo de criação, arte em construção.



Assim, a metalinguagem acompanha a câmera no percurso de três jovens artistas em conflito com o seu meio de expressão, vivendo seus “dias em branco”: um cineasta que não sabe o que enquadrar, um escritor sem sua musa e um pintor que não pinta há seis meses. Todos enfatizam “o nada”: não como ausência, mas um “nada substancializado” (a “parede branca”); o nada precondição e fulcro da criação; o nada verdade, vivido e representado, pedra angular da idéia essencial exposta acima. Esse é o nada que aparece no irônico poema de Cage que abre o filme, e é o mesmo buscado pelos irmãos Pretti em sua “obra inacabada” – quando, dizendo nada, se diz muito. Cinema que pensa, pensa-se e pensa o mundo. Parabéns, meus queridos artistas do nada.


João Duarte.

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